"Look at Your Game, Girl" é uma canção composta por Charles Manson para o seu álbum Lie: The Love and Terror Cult (1970). Uma balada folk rock e folk psicodélico sobre uma jovem confusa, a canção foi incluída em uma fita que ele enviou para gravadoras. Sua versão recebeu críticas majoritariamente positivas, com críticos reconhecendo o mérito musical da faixa e estabelecendo conexões entre a letra e a forma como Manson manipulava seus seguidores. Depois que Axl Rose foi apresentado a Lie: The Love and Terror Cult, o Guns N' Roses lançou uma versão de "Look at Your Game, Girl" em seu álbum "The Spaghetti Incident?" (1993). A versão do Guns N' Roses é uma balada de lounge com guitarra acústica e congas em sua instrumentação, apresentando elementos de música brasileira e música caribenha. O cover da banda foi recebido negativamente pelos críticos, que consideraram-no de mau gosto. A decisão do Guns N' Roses de regravar a canção gerou considerável controvérsia, pois alguns temiam que Manson pudesse lucrar com a canção. No fim, os royalties provenientes da regravação foram atribuídos a Bartek Frykowski, filho de Voytek Frykowski, uma vítima de Manson, e a controvérsia não prejudicou as vendas de "The Spaghetti Incident?".
Contexto e composição
"Look at Your Game, Girl" foi composta por Manson em 1968 na esperança de que o ajudasse a conseguir um contrato com uma gravadora. A canção é um folk rock e folk psicodélico com duração de dois minutos. É uma balada de andamento moderado, e, como todas as canções de Lie: The Love and Terror Cult, uma demo. Manson canta: "Acha que está amando, querida, mas tudo o que você faz é chorar... Esses sentimentos são reais?"; a faixa é sobre uma mulher insana que está jogando um "jogo louco" e, na busca por amor, só encontrou tristeza. Segundo Alex Henderson, do AllMusic, "Look at Your Game, Girl" "incorpora a abordagem fundamental de Manson para influenciar mulheres jovens, visando suas inseguranças socialmente impostas e insinuando que seu caminho é melhor e mais libertador. Isso é problemático, considerando sua notável habilidade para o controle mental". Manson se inspirava, no geral, em figuras como Beatles, Robert A. Heinlein e L. Ron Hubbard. Ao discutir a música de Manson, Mark Savage, da BBC News, considerou seu jeito de tocar guitarra "básico" e suas letras "desorganizadas". Manson gravou uma versão de "Look at Your Game, Girl" na mesma fita de oito canais que os Beach Boys usaram para a faixa "Well You Know I Knew", descartada do álbum 20/20. Uma gravação diferente dela foi incluída em uma fita que ele enviou para gravadoras depois de ser preso pelos assassinatos de Tate em 1969; essa fita foi lançada comercialmente como Lie em 1970 por Phil Kaufman, ex-colega de quarto de Manson, e registrada pela Awareness Records.
Recepção crítica Alexis Petridis, do The Guardian, escreveu que "Se você pudesse afirmar, de forma vaga e pouco convincente, que algumas das canções que Manson gravou antes dos assassinatos têm algum valor musical — principalmente "Look at Your Game, Girl" — não há mais absolutamente nada que valha a pena ouvir nas gravações [de Manson]". Raul D'Gama Rose, da All About Jazz, considerou "Look at Your Game, Girl" uma canção "icônica" que "resistiu ao teste do tempo". Chris Yates, do Noisey, disse que "A canção é uma anomalia folk rock semi-interessante, embora obviamente uma que teria caído no esquecimento se não fosse por seu autor". Yates a considerou superior à música feita por outros líderes de seitas, como David Koresh e Jim Jones. Escrevendo para a GQ, Jeff Vrabel chamou a faixa de "uma pérola composta por Manson". enquanto Howard Johnson, do TeamRock, a considerou "surpreendentemente terna". Mark Savage, da BBC News, disse que a música de Manson "não é muito boa", mas que a letra de "Look at Your Game, Girl" "[pinta] um retrato assustadoramente preciso dos métodos que ele usava para manipular os membros de seu culto". Eduardo Rivadavia, do Ultimate Classic Rock, considerou a canção uma "relíquia psicodélica".
Versão de Guns N' Roses
Antecedentes e composição
Há relatos conflitantes sobre como Axl Rose teve seu primeiro contato com "Look at Your Game, Girl". O próprio Rose afirmou que foi apresentado à faixa por seu irmão durante uma partida de curiosidades musicais. Marilyn Manson descreveu seu encontro com Rose em sua autobiografia, The Long Hard Road Out of Hell (1998). De acordo com o livro, Trent Reznor do Nine Inch Nails levou Marilyn a um show do U2, onde ele conheceu Rose nos bastidores; lá, Marilyn mencionou sua canção "My Monkey", que incorpora letras de Lie: The Love and Terror Cult. Rose comentou que nunca tinha ouvido falar de Lie, e Marilyn o incentivou a ouvi-lo. Seis meses depois, o Guns N' Roses lançou uma versão cover de "Look at Your Game, Girl" em "The Spaghetti Incident?" (1993), um álbum de regravações de punk rock. Marilyn Manson posteriormente expressou raiva por ter se tornado "moderno" para músicos fazerem referência a Charles Manson em suas canções. Na mesma época em que Guns N' Roses regravou "Look at Your Game, Girl", Rose usava uma camiseta com a imagem de Charles Manson ao lado das palavras "Charlie don't surf". Rose disse que ao ouvir "Look at Your Game, Girl", "gostei da letra e da melodia. Ouvir isso me chocou, e pensei que poderiam haver outras pessoas que gostariam de ouvir". Rose também "sentiu que era irônico que uma canção como essa [sobre loucura] tivesse sido gravada por Charles Manson, alguém que deveria conhecer as complexidades internas da loucura". A canção foi lançada por exigência de Rose, apesar dos protestos de seus companheiros de banda. Rose, juntamente com Dizzy Reed (na percussão), são os únicos membros do grupo a tocar na faixa, com a guitarra acústica tocada por Carlos Booy. Estruturalmente, é uma balada lounge com elementos de música brasileira e música caribenha, bem como congas em sua instrumentação. Geoffrey Himes, da Paste, considerou a canção "arejada" enquanto Bryan Rolli, da Billboard, a chamou de "vivaz". Os vocais de Rose na faixa são nasais. Segundo Himes, a versão do Guns N' Roses não altera substancialmente a original de Charles Manson. O cover termina com Rose dizendo "Thanks, Chas". A canção foi lançada como faixa escondida no álbum e Manson nunca é mencionado no encarte. No álbum, "Look at Your Game, Girl" começa após doze segundos de silêncio após a faixa anterior, "I Don't Care About You". A publicitária da banda, Bryn Bridenthal, afirmou que a decisão da banda de regravar uma canção de Manson não pretendia ser um golpe publicitário, enquanto Slash disse que o cover foi feito num espírito de "humor negro ingênuo e inocente". Nick Kent, do The Guardian, relatou que a faixa foi planejada como uma mensagem para a ex-namorada de Rose, Stephanie Seymour.
Recepção crítica e controvérsia
Elisabeth Garber-Paul, da Rolling Stone, escreveu que o "cover direto" é "uma faixa bem pouco impressionante numa primeira audição", acrescentando que soa como "uma tentativa meia-boca de seduzir uma mulher... até você perceber que o cara que a escreveu liderava um culto com maioria feminina". Em sua resenha de "The Spaghetti Incident?", Stephen Thomas Erlewine, do AllMusic, disse que "a canção de Charles Manson, anexada, deixa um gosto ruim, mas não por causa da canção em si; a inclusão da faixa parece um golpe publicitário, uma forma de aumentar as vendas enquanto tentam recuperar sua credibilidade nas ruas. E como The Spaghetti Incident? prova, eles não precisavam se rebaixar tanto". Alexis Petridis, do The Guardian, escreveu que o cover do Guns N' Roses e outras referências a Manson por músicos são "um exercício de provocação, um atalho cada vez mais gasto e clichê para sugerir que o artista envolvido é perigoso e indomável, um fora-da-lei que desafia as convenções sociais" e "frequentemente parecem ser feitos sem qualquer reflexão real sobre com o que exatamente o artista está se alinhando". Eduardo Rivadavia, do Ultimate Classic Rock, considerou o cover a pior canção da carreira da banda, descartando-o como "uma tentativa forçada de sublinhar sua reputação de 'banda mais perigosa do mundo'." Por outro lado, a equipe da Spin chamou a canção de "Legitimamente Boazinha" e superior a "Paradise City" (1987), embora tenham ficado enojados com a origem da faixa. Segundo Christopher R. Weingarten, da Rolling Stone, "Fazer um cover de um notório conspirador de assassinatos seria uma das últimas grandes controvérsias na trajetória original da banda". J. D. Considine escreveu no The Baltimore Sun que "o álbum mal estava nas lojas há uma semana antes que grupos de aplicação da lei e de defesa das vítimas começassem a expressar indignação". Patti Tate, filha de Doris Tate e irmã de Sharon Tate, respondeu ao cover dizendo: "Será que Axl Rose não percebe o que esse homem fez à minha família? Dói e me enfurece que o Guns N' Roses explore os assassinatos da minha irmã e de outros para ganho financeiro". Jesse McKinley, do The New York Times, relatou que Manson poderia ganhar até 60 mil dólares por cada milhão de cópias de "The Spaghetti Incident?" vendidas, enquanto o Departamento de Correções e Reabilitação da Califórnia afirmou que o valor era de 62 mil por cada milhão de cópias do álbum vendidas. David Geffen, chefe da Geffen Records, gravadora que lançou "The Spaghetti Incident?", comentou: "O fato de Charles Manson ganhar dinheiro com a fama que obteve ao cometer um dos crimes mais horríveis do século XX é impensável para mim"; Geffen conhecia duas das vítimas da Família Manson. Para contrariar as acusações de que estava glorificando Manson, Rose disse que "De modo algum sou um especialista em Manson nem nada, mas as coisas que ele fez são algo em que não acredito. Ele é um indivíduo doente". Rose também afirmou que inicialmente acreditava que Dennis Wilson, integrante dos Beach Boys e antigo conhecido de Manson, era o autor da canção. McKinley, do The New York Times, considerou a alegação de Rose duvidosa, já que ele agradece "Chas" no verso final. A banda considerou remover a faixa das cópias subsequentes de "The Spaghetti Incident?". A parte de Manson nos direitos autorais foi atribuída a Bartek Frykowski, filho de Voytek Frykowski, uma das vítimas dos assassinatos da Família. Bartek Frykowski, cujos filhos eram fãs da banda, comentou: "Embora esta nova situação não possa mudar o passado, minha esperança é que algo positivo surja para o futuro". Ele viu a decisão da banda de regravar uma canção de Manson e as consequências disso como "uma estranha cadeia de eventos". J. D. Considine, do The Baltimore Sun, observou que a controvérsia não prejudicou as vendas de "The Spaghetti Incident?". A controvérsia levou representantes da Nothing Records a dizerem a Marilyn Manson que a gravadora não lançaria "My Monkey", embora depois tenham mudado de ideia e lançado.
Ver também "Never Learn Not to Love"
Referências
Bibliografia Manson, Marilyn; Strauss, Neil (1998). The Long Hard Road Out of Hell. [S.l.]: HarperCollins. ISBN 978-0-06-098746-6